segunda-feira, 2 de julho de 2012
carta para uma amiga
Querida amiga,
com o amor não se insiste
é como chamar uma visita
um convite
preparamos a casa
a dispensa fica cheia, tiramos o pó
varremos a sujeira
gerânios na sala, pêras na fruteira
apenas se permite
tiramos o trinco e estendemos capacho
pois ele não chega
pra quem muito resiste
de nada adianta que você se precipite
demore no banho
e troque de roupa três vezes
ouça um disco favorito
para abrir a porta
espere
que a campainha toque
quinta-feira, 28 de junho de 2012
os escafandristas
na luz do inverno
o mar cintila escamas
um imenso peixe
ondulando
na superfície de si mesmo
azul
azul mais verde
a mais verde que existe
lilás madrepérola
um brilho distante
cortextura
um Van Gogh no Leblon
penso no pintor
e em seu país submerso
imagino o Rio
e os escafandristas
como Chico cantou
vasculhariam meu quarto
e o que encontrariam?
alguns poemas
flutuantes
amores-espuma
e saudades nas estantes
ondulo
na superfície de mim mesma
os poros cintilam suor
como escamas de um peixe
mergulho
quinta-feira, 21 de junho de 2012
recortes da escola
O uniforme esquisito. O uniforme fetiche. A vergonha da saia. Os meninos que se escondiam embaixo da rampa pra ver nossas calcinhas. Formar nas segundas-feiras pra cantar o hino. Demorar a aprender o hino. As aulas de flauta. O coral. Minha primeira bronca por matar aula. O golpe da caderneta. O golpe da menstruação pra não fazer educação física. A bagunça no vestiário. Tomar ducha de água gelada. A bibliotecária evangélica. Jogar rpg nas escadas. O casal de inspetores. Chegar mais cedo pra almoçar na cantina. Macarrão com salsicha. Abraço todo dia. As aulas de artes. Pintar o cabelo com papel crepom. Suco de groselha. Colar e passar cola. O calor nos dias de verão. Emblema no peito. As brincadeiras no pátio. Montinho. Os saraus. Estudar em grupo no refeitório. Os apelidos dos professores. A melhor professora do mundo. João Cabral de Melo Neto. O primeiro amor.
Enrolar na rua pra não voltar pra casa.
quarta-feira, 20 de junho de 2012
nota
estar só é uma condição mais erótica que um relacionamento. pintar as unhas ou ouvir Nina Simone são maneiras honestas de se sentir mais sexy
(yes, she does; yes she does)
-
(yes, she does; yes she does)
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terça-feira, 19 de junho de 2012
segunda-feira, 4 de junho de 2012
baby,
não quero ver
o contorno
do amado desenho de sua boca
se contorcer
suave
em um sonoro
"eu te quero"
quero apenas sentir
nos meus poros sempre abertos
ao amado peso de suas mãos
suaves
um sincero
"eu te espero"
espero
te ensinar
que no amor
as palavras são aliadas
daqueles que temem o passar das horas
e como arma para os covardes
explodem assustadas
aquilo que não teve tempo de ser ditopor si mesmo.
o contorno
do amado desenho de sua boca
se contorcer
suave
em um sonoro
"eu te quero"
quero apenas sentir
nos meus poros sempre abertos
ao amado peso de suas mãos
suaves
um sincero
"eu te espero"
espero
te ensinar
que no amor
as palavras são aliadas
daqueles que temem o passar das horas
e como arma para os covardes
explodem assustadas
aquilo que não teve tempo de ser ditopor si mesmo.
terça-feira, 29 de maio de 2012
sobre a timidez
sem querer
e de propósito
a gente se esbarrava
e sem saber o porquê
nunca se olhava
(ao mesmo tempo)
os olhos escorregavam
pelas bolsas
pelos bolsos
procuravam celular, cigarro, calabouços
contornavam as órbitas
constrangidos
procurando abrigo
fora dos óculos
e mesmo quando um
ou outro
forçava o encontro
era de bom tom
e maior conforto
que as pupilas contornassem
as bocas
vacilantes como as de um peixe
abertas em bolhas de silêncio
sábado, 7 de abril de 2012
terça-feira, 13 de março de 2012
tato #2
Um dia Ribamar existiu pelo tato
os anos lhe pesaram na mão
sólidos como seu crânio
enquanto a certeza da morte
escorria macio por entre os fios de seu cabelo
(com certeza mais finos
e escassos do que os meus)
fecho o livro
e o poema me nasce no mundo
como a capacidade tátil nasce Ribamar
brinco por um tempo
com um fio solto por entre os dedos
esqueço de existir.
segunda-feira, 12 de março de 2012
notas sobre a dexistência com x
chamo de 'dexistência'
a prazerosa prática de não ser.
pequenos exercícios que me proporcionam
pequenos exercícios que me proporcionam
momentaneamente
a experiência abissal de abandonar a existência
em todos os termos físicos e Aristotélicos.
exercício #1:
como quando aos seis anos
devo espremer os olhos
e soltar os membros no vazio
por fim, preciso apenas
girar
o mais rápido possível
( a velocidade dá a liga entre o dentro e o fora )
( a velocidade dá a liga entre o dentro e o fora )
exercício #2:
enterrar meu rosto em sua mão
sufocar as narinas
e cegar com a pressão do toque
não emitir um som
ser todo tato
toda palma
( o calor garante a calma de esquecer )
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