quinta-feira, 8 de julho de 2010

memória

"Oh abre os vidros de loção
e abafa
o insuportável mau cheiro da memória."
Carlos Drummond de Andrade.



Lembro de minha avó
sempre almíscar
e sua casa
de incenso e sândalo
em Botafogo.
Lembro de respirar
jabuticaba em novembro
dama-da-noite
quando anoitecia
e a maresia
na praia do Leblon.
Lembro de minha mãe
lençóis quarados
perfume de amaciante.
Era um cheiro confortável.

Talvez cheiro seja coisa da infância
e não exista na vida real.
Talvez cheiro seja lembrança.

sexta-feira, 2 de julho de 2010

vaga lembrança


Ontem à noite,
a lembrança do belo
me escorregou pela pestana.
Um Botticelli
equilibrando-se no vazio,
lia
rente a porta
do vagão do metrô.
De sua cabeça andrógena
pendiam cachos,
línguas de fogo
que lambiam
as páginas
ruivas de combustão.
Vestido de éter
ele viajava de pé
camisa e calça
monocromáticos
em um tom
de nada.
Lembro
de cada botão
mas quando saltou
não li a estação.


domingo, 27 de junho de 2010

poeta de luz


Com cautela
e precisão,
o poeta se aproxima
do poema em questão.
Em único fôlego,
contrai o diafragma
fazendo a sombra
rimar com a luz
indireta,
no objeto-alvo direto
da sua objetiva visão.
Verso em foco
e todo o resto é rastro,
cor e ilusão
- mero borrão.
Ao som de uma
onomatopéia
é que o poeta
eterniza o segundo
da sua criação.

domingo, 20 de junho de 2010

monóxido de laranja


Na ponta do pé

ela se debruça,
encosta o peito
no parapeito
se esticando toda
para o fim de tarde.
Não via o sol,
este ausente
deixou apenas
o seu calor
de cor
de toranja
madura.
Céu nublado,
por entre a franja,
apenas via
tufos de algodão
embebidos
em Fanta Laranja.

Sai da janela, menina!
Deixe de bobagem,
que isso é só poluição.

-
Esse aqui é pro meu amigo Dorly e todos os sonhadores que detestam ser acordados. ;)

terça-feira, 8 de junho de 2010

palmeira


Vertical ela cresce
até rasgar o azul
e manchar de verde
a vista de quem
entorta o pescoço
no jardim botânico.
Vertical ela cresce
até se afastar,
até se isolar,
até não lembrar
da vida na cidade.
Imperial ela segue
até sabe Deus onde
até quem sabe encontrar Deus onde
tudo é silêncio.


sábado, 5 de junho de 2010

cremogema


Panela no fogo
a bisa mexia
no sentido horário,
tic tac na colher de pau,
pra não desandar.

Mingau no prato
come antes de esfriar!
quente, quente, quente
primeiro as beiradas,
cuidado pra não se queimar!

Louça na pia
deixa que eu lavo!
só pega um banquinho
pr´ eu alcançar.


quarta-feira, 26 de maio de 2010

balanço


No topo do mundo
ela é vento.
Basta um impulso
e o céu se aproxima
as pernas esticadas
deixando pra trás
o chão,
os cabelos,
a mãe
e seus zelos.
A liberdade,
suspensa por duas cordas,
dura o instante
de desejar ser livre
antes de ser tragada
de volta
pela paisagem.

domingo, 16 de maio de 2010

desnudar


Peça por peça,
me dispo.
tiro artigos, preposições – meros acessórios
desabotôo rimas
verso por verso
descalço sílabas de seda
presas na cinta métrica

puxo o zíper, exclamação (!)
escorrego vírgulas pelas pernas
deixo à mostra a interrogação

sozinha no quarto
uma palavra flutua
nua.



terça-feira, 4 de maio de 2010

poeira cósmica


Flocos flutuantes,
poeira dançante
no sol da manhã.
Pequenas estrelas
na nossa galáxia
de dezmetrosquadrados
em laranjeiras.
Cada livro na estante
explode
uma supernova
de páginas, de pó,
constelações inteiras,
poeira cósmica
que une em verso
nosso universo.

domingo, 2 de maio de 2010

prelúdio de primavera


Na claridade tímida da manhã,
delgado,
o felino se estica,
espreguiça, torce, contorce
e contorna com a cauda
as mornas pedras da varanda.

O largo bocejo
é interrompido
pela nova distração:
amarela,
ela voa ligeira,
vinda do jardim.
Paira
antes de ser espantada
por galhos de pêlo
e segue para o azul,
infinita.

-
Mais uma vez: Camila Andrade, na foto sua musa Frida : http://www.flickr.com/photos/camiandrade/